A resposta que vem de supetão é mais ou menos a seguinte: para levar de uma página a outra da web. Para complementar a questão, podemos dizer que serve para apontar correlações entre conteúdos e, assim, enriquecer a experiência do internauta. Não há dúvidas de que isso esclarece, num nível bem imediato, à dúvida de que para que servem os links.

Mas que tal aprofundarmos um pouco mais o olhar e pensarmos a que outras razões servem um link? Que tal refletirmos sobre a maneira como ele modifica nossa relação com a informação, segurança, qual seu impacto na economia, comunicação, marketing – se é que ele interfere de alguma forma nesses campos?

Será uma boa pedida também avançar mais, agora para um plano mais abstrato: o link já não teria se tornado um elemento cultural de nossos dias, já não estaríamos “pensando por links”, tamanhas as conexões possíveis em nossos dias? No plano da linguagem, o que mudou?

O link induz à especialização

Comecemos pela leitura de negócios.

“O link muda tudo”, escreve Jeff Jarvis em ‘O que faria a Google?” (Editora Manole).

Para empresas e profissionais de toda a ordem, especialmente os que atuam na área de serviços, um efeito direto é o aumento da especialização. “A ideia de fornecer um produto de tamanho único que faz tudo para todas as pessoas é vestígio de uma era de isolamento”, escreve Jarvis, eleito pelo Fórum Econômico Mundial um dos 100 maiores líderes de mídia do mundo.

“E a especialização cria uma demanda por qualidade – se você quiser se concentrar em um mercado ou serviço, é melhor ser o melhor para que as pessoas coloquem links para você, de modo que você suba nos resultados do Google e as pessoas possam encontrá-lo e clicar em seu site”.

“No varejo, na mídia, na educação, no governo e na saúde – em tudo -, o link fomenta a especialização, a qualidade e a colaboração, além de alterar os antigos papéis e criar outros. O link muda a arquitetura fundamental das sociedades e das indústrias, assim como as vigas e os trilhos de aço mudaram o modo como as cidades e nações são construídas e seu funcionamento”, diz.

Para completar o raciocínio de Jarvis, o maior número de conexões eleva o valor e estimula relações e conhecimento.

Um componente da linguagem

Agora, deixemos de lado o plano concreto onde se situam a economia e a sociedade e olhemos por outro prisma.

Um autor que também se debruçou sobre os efeitos dos links é Steven Johnson. Há um capítulo sobre o tema em seu “Cultura da interface”. Se Jarvis analisa o link a partir do contexto das transformações provocadas pelo Google, Johnson prefere a perspectiva da linguagem.

“O link é a primeira nova forma significante de pontuação a emergir em séculos, mas é só um sinal do que está por vir”, redigiu em seu livro, em 1997. “O hipertexto, de fato, sugere toda uma nova gramática de possibilidades, uma nova maneira de escrever e narrar”, argumenta Johnson, que é formado em semiótica e literatura.

Um dos pontos centrais do argumento dele é que, ao contrário do que muito se apregoa, os links não são desagregadores, os culpados pela suposta dispersão dos internautas num labirinto digital, um convite à superficialidade.

São antes “um recurso sintético, uma ferramenta que une múltiplos elementos num mesmo tipo de unidade ordenada.”

Isso demonstra que, para Johnson, o link é um componente lingüístico presente na interface web, o que confere à palavra um papel relevante no ambiente digital.

Construção do conhecimento

Para entender a ideia, pense no percurso que se tem a partir de links associados a um tema central – uma matéria sobre o uso das redes sociais pelas empresas, por exemplo. Se bem escolhidos, os links seguramente proporcionarão um entendimento muito maior, formado a partir de múltiplas vozes, olhares e recortes.

A meu ver, pegando a deixa de Johnson, não poderíamos dizer que é como se tudo acabasse fazendo parte de uma grande narrativa – aliás, uma forma diferente de narrativa – , que começa pelo texto principal, prossegue pelo conteúdo  sugerido pelos links e só ao final desse processo é reelaborada pelo internauta?

É uma nova maneira de processar conhecimento.

Como aproveitar melhor essa nova possibilidade? Eis um exercício que está diante de nós todos os dias, a cada novo clique.