De vez em quando acontecem certas coincidências na vida que me fazem ficar feliz com o desdobramento que as coisas tomam, e ao mesmo tempo porque tais coisas também trazem ideias que ficariam muito bem escritas em um artigo.
Aconteceu uma dessas coincidências em meu penúltimo artigo publicado no iMasters, que me fez pensar numa série de artigos, que inicio hoje. O que me levou a isso (principalmente a este primeiro artigo da série), foi o fato de que mais de um mês após o artigo ser publicado foram feitos dois comentários em um intervalo de menos de uma hora, e com a mesma tônica: de que o sistema de informação de horário dos ônibus da cidade de Vitória PODERIA ter saído do ar na greve de motoristas de ônibus ocorrida em Novembro/2010 por pressão política. Ou seja, alguém teria ordenado que o sistema saísse do ar, e O SISTEMA FORNECEU A ELE, aparentemente de forma direta, visto que era exibida a mensagem ‘Sistema indisponível durante a greve’, de próprio texto muito estranho, a possibilidade de parar o funcionamento. E isso, reitero, quando o usuário final, a população, que era o cliente real do sistema, mais precisava do mesmo.

Fiz uma pequena pesquisa e consultei alguns amigos advogados e todos me disseram que essa manipulação poderia ser considerada abuso de poder, crime, por ser antiética, e afetar outras pessoas em detrimento de uma ou de algumas pessoas. Caberia por isso ação do Ministério Público contra a pessoa que deu a ordem de retirada do ar, e também contra quem desenvolveu o sistema.

Mas neste artigo vou me ater unicamente à questão que o seu cliente PODE pedir tudo o que ele quiser para você fazer, mas você NÃO PODE efetivar tudo o que o cliente te pedir. E não estou falando por limitação técnica ou de linguagem (que já nos fazem negar uma solicitação no ato, pois conhecemos tais limitações de nossos ambientes). Me refiro a uma única palavrinha que por vezes é esquecida: Ética.

Palavra curiosa, que pode ser tomada como abstrata, resumirei de forma sucinta e direta o seu significado: ser ético é não fazer algo que venha a prejudicar outra pessoa de forma intencional. E, veja bem, ética não faz distinção entre religiosos, ateus ou agnósticos. Ela existe por si mesma, ditada pelo consenso geral da sociedade.

Curiosamente, há alguns dias participei da formatura de um grandioso amigo, em Sistemas de Informação, e pude ver nas palavras do patrono da turma uma chamada ao exercício ético da profissão dos formandos. E não foi só nas palavras dele: no juramento que é feito (e que é feito em todas as formaturas Brasil afora), estava lá o comprometimento com a ética e com as boas práticas. Repito: no juramento.

Certo, mas e quando o cliente nos pede algo que é antiético, o que devemos fazer? Conversar com ele, explicar que não poderíamos desenvolver tal coisa por causa deste ou daquele motivo e, se preciso for, inclusive apelar para o censo Ético. Torne seu projeto um produto ético.

Ah, mas você pode estar pensando: “se eu não fizer, outra pessoa fará e eu vou somente perder o cliente”. Pois muito bem, se você é uma pessoa que pensa a curto prazo, eu diria que você está correto. Mas se você é uma pessoa que olha lá na frente, no futuro, eu te digo que continue trabalhando na linha deste artigo. Com o tempo, empresas que não desenvolvem dentro de padrões éticos acabam caindo no conceito dos clientes, dos profissionais, e do mercado em geral. Ou seja, quem concorda em fazer coisas não éticas mais cedo ou mais tarde poderá não encontrar lugar no mercado, pois todos já saberão de suas práticas e não gostarão de tê-lo associado à sua imagem. E em um mundo em que é cada vez mais fácil sabermos das realizações das pessoas, fica igualmente mais fácil o mercado conhecer nossa prática profissional.

Bem, e se os ditos do último parágrafo ainda não foram suficientes para te convencer, conto então a história da Operação ByPass, feita pela Polícia Federal em 2009, que descobriu fraudes fiscais em supermercados e padarias no Espírito Santo. Para resumir o caso a você: era passada uma informação à impressora de cupom fiscal para que imprimisse normalmente a ‘notinha’ para o consumidor, mas vinha também uma instrução para que essas informações não fossem salvas na memória da impressora fiscal. Era como se boa parte das compras fossem tratadas como testes.

Em sua defesa, a empresa responsável alegou que não foi ela quem implementou a instrução fraudulenta, mas que o cliente descobriu (sabe-se lá como) e fez por conta própria. Só que a justiça entendeu que, independentemente de ter feito a implementação proposital da fraude ou não, só de ter sido inserido no código a POSSIBILIDADE que levasse à fraude a empresa tinha de ser considerada tão ou mais culpada pelo crime. Ou seja, essa POSSIBILIDADE por si só, já foi considerada uma atitude antiética (e também ilegal) da empresa desenvolvedora.

E o mais interessante é que não tem jeito de querer esconder: alguma hora alguém descobrirá os feitos antiéticos ou as brechas do sistema. No caso da Operação ByPass, todo o esquema foi descoberto porque um cliente fez uma compra de mais de R$ 5.000,00, paga com cartão de crédito, que a própria operadora do cartão informou à Receita, mas que quando vieram as informações do supermercado a compra não existia.

Mas existem outras formas também de vazar algo antiético: pode ser por uma pessoa que não sabe guardar segredo, um ex-funcionário que não estava muito contente com a empresa ou outras situações.

Fato é que o jeito mais fácil de defender ou esconder algo antiético é nunca chegando a produzi-lo, e assim ganhar pontos com o mercado como um todo e também, em determinados casos, até com a sociedade.