Empresas do setor testam tecnologias para permitir que os assinantes usem dispositivos móveis para controlar e interagir com a programação.
caffoUm fantasma ronda o cenário da TV por assinatura: o vídeo via internet. Com a expansão de serviços como o Netflix, a oferta de TVs ligadas à internet e a praticidade do YouTube – sem falar na galopante pirataria, claro – o tradicional modelo de cobrar por um pacote de canais está sob ameaça. Por isso, o setor estuda como facilitar o acesso dos clientes ao conteúdo, defendendo-se do ataque e quem sabe, até aumentando receitas. Nos próximos meses, os assinantes começarão a ver recursos como o uso de tablet e smartphones para controlar e assistir a programação, compartilhamento de opiniões via redes sociais a partir da TV e muito mais conteúdo on demand (sob demanda). É o admirável mundo novo das "múltiplas telas".

O debate sobre as saídas para o modelo atual das TVs pagas foi a tônica da congresso da ABTA - Associação Brasileira de TVs por Assinatura, que aconteceu em São Paulo. Executivos do setor apontaram que o caminho é a integração com as redes sociais e com os dispositivos móveis – principalmente tablets.

Empresas como Motorola, Cisco e Nagra demonstraram tecnologias que já permitem às TVs por assinatura oferecer ao assinante a possibilidade de controlar, assistir e interagir com a programação em tablets e smartphones, agregando valor aos caraminguás que os clientes desembolsam todo mês.

A Motorola exibiu sua plataforma Medios – um software de gerenciamento que permite às TVs enviar conteúdo para diversas telas. Roberto Suzuki, gerente-sênior de desenvolvimento de negócios da empresa, explica que o sistema torna tablets e smartphones "segundas-telas", além de controles-remotos muito mais sofisticados. Os aparelhos móveis podem exibir o mesmo conteúdo que está passando na TV ou servirem para navegar pelo conteúdo disponível, em uma interface bem mais amigável (e touch) que a oferecida atualmente pelas emissoras. É possível programar uma gravação a partir do gadget, além de interagir com redes sociais, postando comentários sobre a programação, por exemplo. Outro recurso bacana é o "Siga-me" – continuar vendo a programação da TV no dispositivo móvel, e vice-versa, dentro do mesmo ambiente Wi-Fi. O executivo diz que operadoras como NET, Telefônica e GVT estão testando o Medios. "Acredito que há uma grande chance de alguma lançar um serviço desses ainda este ano", disse.

Solução bem semelhante é a da Nagra. Diferentemente da Motorola, no entanto, ela está focada no iPad como segunda tela. O tablet da Apple permite ver a programação da TV, vídeos sob demanda e pay-per-view, programar gravações e enviar o conteúdo assistido no portátil para outra TV dentro da mesma rede doméstica. No app, é possível criar perfis de uso para cada membro da família, com canais e conteúdos preferidos e permissões de uso (controle parental). Tudo isso com uma interface comum ao tablet e à TV.

Sacha Bugnon, executivo da Nagra, disse que uma vantagem da empresa é seu domínio na área de "encoding" (codificação) do sinal – o software deles é usado para criptografar o sinal da NET, TVA, Oi TV, Via Embratel e CTBC. "O que oferecemos é codificar o mesmo sinal para transmissão a múltiplos dispositivos", explica. Ele também afirma ser a única plataforma com um aplicativo nativo para iPad, com mais recursos e interface aprimorada em relação aos concorrentes, que usam HTML5 rodando em browsers.

Bugnon explica que o sinal de TV em HD exige uma banda de 5 Mbps a 7 Mbps, e até 2 Mbps em definição normal (420 linhas). O que as operadoras terão de fazer é emitir a mesma programação em resoluções adequadas para smartphones (150 Kbps), tablets menores (200 Kbps), iPad (400 Kbps) e PC (de 500 Kbps a 1 Mbps).

Outra empresa de olho nessa convergência é a Cisco, com sua plataforma Videoscape. A tecnologia, para operadoras, reúne o conteúdo da TV digital e on-line a aplicativos de rede social e comunicações, levando a programação da TV para outras telas e permitindo maior interação do usuário.

Um dos componentes da plataforma, o Media Suite, permite gerenciar o conteúdo para que as TVs possam publicá-lo em várias telas. No centro dessa paisagem, um set-top box turbinado (ou gateway), claro, com suporte a todas as formas de vídeo em uma TV: por assinatura, canais abertos, canais premium, VoD e a web. "Os gateway (centrais de mídia) são a chave para trazer conteúdo via IP para o ambiente doméstico", disse Bob McIntyre, CTO da Cisco.

Futuro sem set-top

Por falar em set-top box, é possível até que sejam extintos. Com a expansão da banda ultralarga (100 Mbps ou mais), no futuro o usuário pode nem precisar mais desse dispositivo, hoje essencial na TV paga. "Pode ser que tudo, apps e conteúdo, esteja na nuvem, nos servidores das operadoras", diz Sacha Bugnon, da Nagra. Nesse cenário, até que não tão futurista, o assinante ordena uma gravação de um seriado a partir de seu smartphone e depois pode assisti-lo no tablet, na TV ou no próprio celular. Enquanto curte o episódio, ele pode comentar/recomendar no Twitter e/ou Facebook, tudo dentro de uma interface comum a todos os dispositivos.

E o que falta para essa convergência tornar-se parte do dia a dia? Um bocado de coisas.

Apesar da queda do preço e da aumenta da banda larga, "no Brasil, ainda não há massa crítica suficiente para avaliar a demanda", disse Luis Andrade Lima, diretor de operações da Algar Telecom, empresa de infraestrutura de rede.

Outro ponto é simplesmente como fechar a conta. "Todo mundo quer tudo a toda hora, com baixo custo e alta qualidade", questiona o executivo. Além disso, prossegue, "o modelo de negócios para banda larga móvel não se viabilizou ainda, por conta dos investimentos necessários em banda", argumenta. Para Bugnon, da Nagra, essa discussão é mundial. "As operadoras ainda não sabe se, e quanto, cobrar por esses serviços".

Segundo Marcio Carvalho, diretor de produtos da NET, a demanda até existe. O Now, serviço de vídeo sob demanda (VoD) lançado há três meses, teve mais de 1,6 milhão de programas reproduzidos (90% gratuitos) – e isso porque ainda não está disponível para todos os assinantes. Ele aposta que os assinantes pagarão para ver o conteúdo a qualquer hora, ou antes que ele saia no pay-per-view ou no canal fechado. Mas confessa ainda não ter certeza sobre os rumos. "Estamos trabalhando com broadcast (ao vivo) e VoD para dispositivos móveis, mas não sabemos como será o modelo de negócios", admite.

De fato, a receita pode até não vir em um primeiro momento. Para Ariel Dascal, diretor-geral da OiTV, "não vejo esse serviços convergentes como crescimento de receita, mas para prover conteúdo ao usuário onde ele quiser".